Imagens e palavras

Cláudia A. Bisol e Carla B. Valentini

Mensagens transmitidas de forma visual são muito comuns em nossa vida cotidiana. Desde as pinturas pré-históricas em cavernas, as imagens expressam importantes aspectos da cultura humana. Atualmente, ainda mais: a onipresença da mídia (televisão, internet, publicidade) constrói uma sociedade baseada em fluxos ininterruptos de imagens que criam narrativas sobre todos os aspectos da vida humana.

A presença fundamental das formas visuais em nosso cotidiano coloca algumas questões sobre o acesso ao conhecimento, a convivência e a autonomia de pessoas com deficiência visual. Como as pessoas com deficiência visual desenvolvem conceitos sem o apoio direto de imagens? Como constroem sentido sobre o mundo que se expressa em pinturas, fotografias, gravuras, vídeos, cartazes, telas de computador?

Um dos teóricos que mais contribuiu para a compreensão do desenvolvimento da pessoa com deficiência visual foi o psicólogo russo Lev Semyonovich Vygotsky (1896-1934). Para Vygotsky, a superação das limitações impostas pela deficiência se dá pela via das oportunidades de compensação social através da mediação simbólica. Em outras palavras, o acesso à realidade se dá através do outro, através da linguagem: “Na realidade, o conhecimento não é mero produto dos órgãos sensoriais, embora estes possibilitem vias de acesso ao mundo. O conhecimento resulta de um processo de apropriação que se realiza nas/pelas relações sociais” (Nuernberg, 2008, p. 311).

Para Vygotsky, a palavra permite a superação das limitações da cegueira. A palavra é que permite acesso aos conceitos e também permite compartilhar as experiências sociais dos videntes.

 

Neste poema, a poetisa brasileira Cecília Meireles (1901-1964) faz uma reflexão profunda sobre a relação do homem com a linguagem.

Por isso, é indispensável que os educadores busquem meios de vincular significados às imagens através da criação de canais de comunicação adequados. Desta forma, a palavra se alia aos sentidos remanescentes, permitindo acesso aos objetos e interação com o meio. Assim, cabe aos professores desenvolver uma prática pedagógica que articule essas dimensões. Do contrário, estudantes com deficiência visual ficarão excluídos, mesmo que presentes em uma sala de aula.
Nas empresas, por sua vez, ambientes comunicacionais adequados aliados aos recursos de acessibilidade permitirão as condições estruturais básicas para que a pessoa com deficiência visual desempenhe seu trabalho, em diferentes contextos organizacionais. Sem esses movimentos, funcionários com deficiência visual não terão condições de desenvolver todo seu potencial.

Entre as diferentes estratégias existentes, duas técnicas são importantes em escolas, empresas e ambientes sociais variados: a audiodescrição e a descrição por escrito de imagens. Na audiodescrição para cinema, televisão, dança, artes visuais e vídeos, uma faixa narrativa adicional é introduzida para descrever as informações visuais não expressas nos diálogos. A descrição por escrito de imagens e gráficos, por sua vez, fornece descrições apropriadas em documentos que transmitem conteúdo.

A audiodescrição e a descrição por escrito de imagens são muitas vezes feitas informalmente por amigos, colegas e familiares. No entanto, cada vez mais é necessário que soluções profissionais adequadas sejam disponibilizadas, especialmente em meios formais de comunicação.
A questão não é a falta de alternativas técnicas para que a palavra conquiste seu espaço e para que permita acesso ao que se encontra expresso através de meios visuais. Trata-se de uma mudança de postura de toda a sociedade para que possamos integrar imagens e palavras, expandindo as experiências e as representações.

 

Bibliografia
Audiodescrição. http://audiodescricao.com.br/ad/ Acesso em novembro de 2017.
Camargo, E. P. A comunicação como barreira à inclusão de alunos com deficiência visual em aulas de mecânica. Ciência & Educação (Bauru), p. 258-275, 2010.
Fridman, L.C. Pós-modernidade: sociedade da imagem e sociedade do conhecimento. Hist. cienc. saude-Manguinhos, Rio de Janeiro , v. 6, n. 2, p. 353-375, Oct. 1999.
Nöth, W. Imagem: cognição, semiótica, mídia. Editora Iluminuras Ltda, 1998.
Nuernberg, A. H. Contribuições de Vigotski para a educação de pessoas com deficiência visual. Psicologia em estudo, v. 13, n. 2, 2008.
Sonza, A.P., Salton, B.P. e Strapazzon, J.A. (Org.). Soluções acessíveis: experiências inclusivas no IFRS. Porto Alegre: Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas (CORAG), 2014.

Para citar este texto
Bisol, C. A. & Valentini, C. B. Imagens e palavras. Projeto Incluir. UCS/CNPq/FAPERGS, 2017. Disponível em: <https://proincluir.org/deficiencia-visual/imagens-e-palavras/22-11-2019