Qual o limite do outro?

Olhar para si mesmo e para o outro. Ir além de interpretações superficiais. Deixar falar o outro.

Helen Keller

Escritora, filósofa e conferencista

Formou-se em Filosofia na Universidade Radcliffe aos 24 anos. Escreveu vários artigos jornalísticos e livros, entre os quais um livro autobiográfico, em 1954, traduzido para 50 línguas. Recebeu títulos e diplomas honorários das Universidades Temple e Harward e das Universidades da Escócia, Alemanha, Índia e da África do Sul. Foi honrada com o título de Cavaleiro da Legião de Honra da França, a condecoração Ordem do Cruzeiro do Sul do Brasil, o Tesouro Sagrado do Japão, o Coração de Ouro das Filipinas e a Medalha de Ouro de Mérito do Líbano. Visitou 35 países em cinco continentes. Em 1964 recebeu a “Medalha Presidencial da Liberdade”, a maior honra de seu país. Em 1965, foi uma das vinte eleitas para o Hall da Fama Feminina, na Feira Mundial de Nova York.

Hellen Adams Keller ficou cega e surda aos 18 meses de idade. Aprendeu a falar aos 10 anos. Nasceu em 1880 e faleceu em 1968, nos Estados Unidos da América.

Aleijadinho

Escultor, entalhador e arquiteto

No início de sua carreira, sofreu preconceito por ser mulato e muitas vezes foi obrigado a aceitar contratos como artesão diarista e não como mestre. Começou a produzir sua obra-prima quando tinha mais de 60 anos: 12 profetas esculpidos em pedra-sabão que ornamentam a Igreja de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo. Nessa época, já convivia há cerca de 20 anos com uma doença degenerativa que lhe causava dores contínuas e deformou principalmente suas mãos e pés. Ao perder os dedos dos pés passou a andar de joelhos. Ao perder os dedos das mãos, trabalhava com o martelo e o cinzel amarrados aos punhos.

Antonio Francisco Lisboa, conhecido como Aleijadinho.

Evgen Bavcar

Fotógrafo

Estudou História e Filosofia na University of Ljubljana. Pela Sorbonne, doutorou-se em Filosofia Estética. Morando em Paris, dedicou-se à carreira acadêmica e à atividade fotográfica. Realizou mais de 80 exposições em diversos países e em 2003 lançou o livro “Memória do Brasil”, com textos e imagens produzidas durante suas viagens por terras brasileiras. Fala francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, esloveno e servo-croata.

Evgen Bavcar nasceu em 1946, na Eslovênia. Aos 11 anos de idade, dois acidentes consecutivos provocaram cegueira completa.

Emmanuelle Laborit

Atriz e escritora

Em 1993 recebeu o prêmio de revelação teatral Molière. Desde sua estréia no cinema, em 1994, com o filme “3000 scénarios contre un vírus”, de Fernand Moszkowicz, atuou em mais de 10 filmes. É diretora, desde 2003, do Teatro Visual Internacional. Publicou sua autobiografia em 1994.

Emmanuelle Laborit nasceu surda, em 1971, na França.

Pascal Duquenne

Ator

Desde a adolescência se dedicou às artes, particularmente dentro da trupe Créahm, em Bruxelas, onde participou de inúmeras criações em dança e teatro. Em 1991 atuou em seu primeiro filme, ‘Um homem e duas vidas’, a convite do diretor Jaco van Dormael. O filme recebeu o Prêmio Câmera de Ouro no Festival de Cannes de 1991. Por sua atuação no filme ‘O oitavo dia’ (1996), dividiu com o ator francês Daniel Auteil a Palma de Ouro de Cannes de Melhor Ator.

Pascal Duquenne nasceu em 1970, na Bélgica, com Síndrome de Down.

Atletas paraolímpicos

Em 1948, veteranos da Segunda Guerra Mundial reuniram-se para uma competição esportiva organizada por Sir Ludwig Guttmann, na Inglaterra. Em 1960, na cidade de Roma, 400 atletas de 23 países inauguraram o que hoje se conhece por Paraolimpíadas. Em Beijing, em 2008, competiram 3.951 atletas de elite de 146 países, em 20 modalidades esportivas: tiro com arco, ciclismo, futebol de 7, levantamento de peso, tiro esportivo, voleibol sentado, rúgbi em cadeira de rodas, atletismo, hipismo, goalball, remo adaptável, natação, basquete em cadeira de rodas, tênis em cadeira de rodas, bocha, futebol de 5, judô, vela, tênis de mesa, esgrima em cadeira de rodas. Os atletas podem ser classificados em seis grupos: amputados, paralisados cerebrais, deficientes visuais, lesionados na medula espinhal e deficientes mentais.

O Brasil participou pela primeira vez dos Jogos Paraolímpicos em 1972, em Heidelberg, na Alemanha. Em Beijing 2008, a seleção paraolímpica conquistou 47 medalhas: 16 de ouro,14 de prata e 17 de bronze.

Stephen Hawking

Físico, professor, cientista e escritor

Graduou-se em matemática e física na Universidade College, em Oxford. Doutorou-se em Cosmologia pela Trinity Hall, em Cambridge, em 1966. Teve três filhos do primeiro casamento. Casou-se pela segunda vez em 1995. Em 1977 tornou-se professor de física gravitacional e, em 1979, professor de matemática na Universidade de Cambridge, ocupando a cadeira do famoso cientista inglês Isaac Newton. É membro da Royal Society, uma das mais antigas e conceituadas instituições acadêmicas do mundo. Vendeu mais de 9 milhões de exemplares do livro “Uma breve história do tempo”, traduzido para 33 idiomas.

Stephen William Hawking nasceu em Oxford, Inglaterra, em 1942. Aos 21 anos passou a sofrer de esclerose lateral amiotrófica, doença neuromuscular degenerativa e incurável que produz paralisia progressiva. Sua mobilidade é praticamente nula. Comunica-se através do movimento de três dedos em um computador especial fixado na cadeira de rodas por ele concebida.

Conheça outras histórias

Qual o limite do outro?

Cláudia A. Bisol e Carla B. Valentini

O olhar é rapidamente capturado por aquilo que marca a diferença em pessoas como Helen Keller, Stephen Hawking, Aleijadinho, Pascal Duquenne, Evgen Bavcar, Emmanuelle Laborit e em atletas paralímpicos: surdo-cegueira, doenças degenerativas, Síndrome de Down, deficiência visual, surdez, paralisias, membros amputados…

O olhar registra rapidamente a diferença em relação ao que se convencionou chamar de normal. As palavras, por sua vez, embaralham-se: como nomear?

Excepcionais, portadores de deficiência, portadores de necessidades especiais, pessoas com necessidades especiais, deficientes, pessoas com deficiência – somam-se nomenclaturas ao longo dos anos. A confusão generalizada e a dificuldade de nomeação vai das ruas às universidades e aos documentos oficiais. Qual o termo politicamente correto? A língua desliza e se atrapalha, assim como o olhar.

A maioria das pessoas sente dificuldades ao falar sobre deficiência ou sobre ser deficiente. Uma das principais razões para o desconforto é que a deficiência é cercada de preconceitos e entendida como algo muito negativo. A ideia de que é uma tragédia ainda ronda a sociedade e marca a vida das pessoas com deficiência e de suas famílias.

Você compartilha esta ideia? O que você pensou e sentiu ao ver as conquistas destas pessoas cuja vida retratamos brevemente? A sua interpretação dessas histórias de vida depende do seu conjunto de crenças e valores, de suas experiências, do modo como você habita seu próprio corpo e do modo como você pensa as diferenças entre as pessoas.

São várias as questões possíveis: qual a sua relação com o que a sociedade considera normal? Como você habita o seu corpo, ou seja, qual a relação que você tem com os limites e com os potenciais que seu corpo apresenta? Qual a sua experiência em relação ao que pode e ao que não pode fazer, ao que consegue ou não?

O olhar tem que ser duplo: para si mesmo e para o outro. Isso permitirá ir além de interpretações superficiais que se alternam, por exemplo, entre considerar a vida das pessoas com deficiência como sendo trágicas ou admiráveis pela superação que representam. Sim, considerar que a deficiência deve ser motivo de pena ou que deve vir acompanhada de heroísmo e de talentos extraordinários são exemplos de interpretações superficiais e que acabam reforçando o preconceito.

Este preconceito tem nome. Chama-se capacitismo: “O termo capacitismo se refere à naturalização e hierarquização das capacidades corporais humanas. Quando uma pessoa não enxerga com olhos, ela é lida como deficiente e passa a ser percebida culturalmente como “incapaz” e, portanto, “especial”. Por isso, o capacitismo impede a consideração de que é possível andar sem ter pernas, ouvir com os olhos, enxergar com os ouvidos e pensar com cada centímetro de pele que possuímos. O capacitismo também é essa forma hierarquizada e naturalizada de conceber qualquer corpo humano como algo que deve funcionar, agir e se comportar de acordo com a biologia” (Mello, 2019, p. 136).

Nosso convite é para que você comece a questionar profundamente o que entende por deficiência e por eficiência. Um olhar que vê o outro sob o prisma da pena, da tragédia, do que falta, ou que exige uma superação extraordinária para que a pessoa passe a ter valor deixa de ver o que se propõe como outra forma de estar no mundo.

O que é a deficiência, quem é deficiente? A deficiência é uma falha mensurável no corpo ou na mente de uma pessoa, ou é um modo de estar no mundo?

Olhe para essas histórias de vida e olhe para si mesmo. Como diz Lennard Davis (1995), o corpo não é simplesmente algo físico. O corpo é um conjunto de atitudes. No entanto, nosso imaginário coletivo pode estar ancorado nas capacidades e nas incapacidades, regido por aquilo que uma pessoa consegue ou não fazer. Tendemos a fazer uma oposição reducionista entre normalidade e anormalidade.

Vamos insistir nesta questão, pois ela atravessa o cotidiano das pessoas nas escolas, nas empresas e nas relações familiares: à primeira vista, pode-se pensar que a maior vitória das pessoas com deficiência é superar os chamados “limites” colocados pela surdez, pela cegueira, pelas diferenças intelectuais, pelas dificuldades de locomoção, etc. Esse é um modo normalizador de se olhar a questão: colocadas as próteses, estabelecidas as compensações, ótimo, a pessoa pode “funcionar’” o mais próximo da normalidade possível – do ideal de ser humano, com o conjunto de significados associados a esse ideal em cada cultura e momento histórico. Este olhar é normalizador porque pressupõe que há uma maneira adequada de se habitar nosso mundo, outras formas são desvios ou doenças. Esse olhar está contaminado pela oposição binária entre normalidade e anormalidade.

Joias desenhadas por Salvador Dalí transformam o corpo em arte surreal.

Pois bem, há outro modo de se pensar que desloca o olhar do indivíduo para sociedade, e que consiste em considerar as barreiras que se produzem e reproduzem cotidianamente. Que um deficiente visual possa tirar fotografia? “Está no curso errado, não é profissão para ele”, dirão os professores. Que uma surda seja atriz? “Como, se não pode falar? Haverá uma profissão mais adequada”, diria um orientador vocacional.

Professores, médicos, psicólogos, e tantos outros, sugerem caminhos delineados a partir de seu modo “normalizador” de pensar as possibilidades, impossibilidades e as adequações à sociedade, criando barreiras que cerceiam as vidas: “Que tal uma linha de montagem para os surdos, já que são ágeis com as mãos? Deficientes visuais, bem, é difícil, muitos aprendem a tocar instrumentos… Cadeirantes? É mais fácil, basta ter uma rampa. Síndrome de Down, já sei, empacotador, o supermercado poderá ter uma vaga…”

Vamos inverter esta lógica. Vamos nos propor a conviver, a conversar entre nós, a dialogar e a descobrir as possibilidades que se abrem para além das histórias prontas, tradicionais, marcadas pelo capacitismo e pela dificuldade que temos, enquanto sociedade, de valorizar cada experiência de vida em sua potencialidade.

A proposta pode ser esta: deixar que as pessoas possam falar por si, para então aprender com elas sobre suas vidas. Que nos espaços coletivos possamos construir as possibilidades de conviver, aprender, trabalhar e usufruir da vida, juntos. Que o limite do outro não seja mais colocado de “fora para dentro”, eis talvez o maior limite a ser superado.

Bibliografia
Davis, J. L. Enforcing normalcy: disability, deafness and the body. London: Verso, 1995.
Mello, A. G.; Prata, N.; Pessoa, C. Politizar a deficiência, aleijar o queer: algumas notas sobre a produção da hashtag# ÉCapacitismoQuando no Facebook. Desigualdades, gêneros e comunicação, p. 125-142, 2019.

Para citar este texto
Bisol, C. A. & Valentini, C. B. Qual o limite do outro? Projeto Incluir – UCS/CNPq/FAPERGS, 2011. Revisado e atualizado em 2023. Disponível em: <https://proincluir.org/limites/24-5-2024