De perto ninguém é normal

Cláudia A. Bisol e Carla B. Valentini

De perto ninguém é normal, canta Caetano Veloso em sua música “Vaca Profana” desde o ano de 1986. A frase circula em diferentes momentos em vários círculos sociais, quase como um conhecimento tácito.

Pena que as pessoas não pensem nela mais profundamente. Parece persistir um anseio de normalidade, como se a normalidade garantisse um tipo de pertencimento… “ah, mas isso é normal…”, “é normal que seja assim”… Pergunta-se aos psicólogos qual é o desenvolvimento normal de uma criança. Médicos são constantemente chamados a falar do peso normal, da altura normal, índices normais em exames de sangue. Toda uma medição constante de todos os aspectos da vida.

Desenho do Homem Vitruviano (o Cânone das Proporções, 1942) de Leonardo da Vinci.

O conceito de norma se relaciona com a ideia de que a maioria da população deve ou deveria, de algum modo, fazer parte de um padrão. Soma-se a altura de uma amostra significativa da população, por exemplo, divide-se pelo número de indivíduos e o resultado é a altura média da população. A contribuição da estatística foi muito grande no estabelecimento da noção de normal como imperativo da sociedade moderna. Adolphe Quetelet (1796-1847) formulou o conceito de homem médio ou homem padrão: este ser humano abstrato seria a média de todos os atributos humanos em um dado país (Davis,1995). Quando a questão é de estatura, peso, pressão sangüínea, temos a descrição de um tipo físico – o que é mais comum, o que acontece mais vezes em uma determinada população. E ao mesmo tempo em que se estabelece a média, se estabelece também o desvio. Se estabelece que todos devem se aproximar o máximo possível dos atributos da maioria.

Fazer da ideia de padrão um imperativo ao qual todos deveriam responder é um passo muito pequeno. Um homem de estatura muito abaixo da média de seu grupo social poderá se achar inferior por não possuir um atributo que o iguale aos demais. Neste exemplo, os danos poderão se restringir a sua autoestima, mas o mesmo mecanismo vai se tornando mais insidioso e perverso conforme a distância que separa os atributos em questão, da média daquela população. Zonas de poder se constituem rapidamente, marcando exclusões, desvalorização e discriminação não apenas a partir de atributos físicos, mas também comportamentais: comportar-se como a maioria das pessoas, permanecer dentro das convenções.

De perto somos todos únicos. De perto ninguém consegue responder aos padrões: os corpos fogem da média em algum aspecto, o comportamento desliza por entre as rachaduras das convenções. É nas diferenças que construímos nossa singularidade, que nos distinguimos uns dos outros.

Mas o movimento é muito instável: se estabelecem zonas mais flexíveis no presente quando comparado ao auge da sociedade moderna (até a metade do século passado, aproximadamente). A tradição, na maioria dos países ocidentais, não tem mais o mesmo peso normalizador que tinha tempos atrás. Mas há armadilhas: às vezes, padrões rígidos do passado são trocados por padrões do presente. Por serem atuais, contemporâneos, parecem menos rígidos, mas novas zonas de poder, de exclusões, desvalorização e discriminação se montam rapidamente.

Se não fosse assim, não haveria a necessidade de um discurso tão estruturado, insistente e por vezes contraditório sobre a questão da diversidade e do respeito às diferenças. Grandes esforços discursivos na forma de propaganda, leis, cotas, eventos, ações afirmativas, geralmente denunciam a dificuldade de construir um espaço legítimo nas instituições (estado, escola, família, trabalho, etc).

Se a norma não fosse excludente, não haveria motivo para se falar tanto de inclusão.

No paradigma da inclusão a ênfase está na diversidade e não na semelhança, isto porque a inclusão está centrada em adequar os sistemas gerais da sociedade de forma a eliminar os fatores que excluíam algumas pessoas. Para a sociedade incluir é preciso um movimento no sentido de atender as necessidades de todos, considerando a diversidade de sujeitos e seu direito à equidade, ou seja, equiparar oportunidades. Assim o pertencimento não está mais na normalidade, mas no direito e reconhecimento da individualidade: que de perto ninguém precise ser normal!

Bibliografia
Davis, J. L. Enforcing normalcy: disability, deafness and the body. London: Verso, 1995.
Cunha, M. I. & Pinto, M.M. Qualidade e educação. Revista Brasileira Estudos Pedagógicos, Brasília, v. 90, n. 226, p. 571-591, set./dez. 2009.

Para citar este texto
Bisol, C.A. & Valentini, C.B. De perto ninguém é normal. Projeto Incluir. UCS/Fapergs, 2011. Disponível em: <https://proincluir.org/diversidade/normalidade/22-11-2019