Orientação e mobilidade

Cláudia A. Bisol e Carla B. Valentini

É inquestionável o fato de que a visão oferece ao ser humano condições de se locomover pelo espaço físico reconhecendo o ambiente e a posição em que se encontra, os objetos significativos que o circundam e a possibilidade de se deslocar com relativo conforto, independência e segurança. Portanto, é inquestionável também que a deficiência visual traz consigo, em maior ou menor grau, alguma restrição da mobilidade independente em ambientes não familiares.

Estas restrições não significam que a pessoa cega ou com baixa visão precisa ficar isolada, em espaços restritos e na total dependência de outras pessoas. Pelo contrário: existe um conjunto muito desenvolvido de técnicas de Orientação e Mobilidade que oportuniza a aprendizagem sistemática de conceitos referentes ao ambiente e ao próprio corpo e que permite locomoção independente para pessoas com deficiência visual.

Os programas de reabilitação ou habilitação dos sentidos remanescentes permitem à pessoa com deficiência visual aprender a orientar-se por meios auditivos, táteis e não visuais.

 

 

O guia vidente descreve os arredores e dá instruções verbais ao esquiador cego ou com baixa visão.

 

Trata-se de um processo amplo e flexível, que depende muito do desenvolvimento global da pessoa. Claro que é diferente se a criança nasce cega e a ela são oferecidos recursos para locomover-se com autonomia desde muito cedo, se a perda da visão é gradativa, oferecendo à pessoa a oportunidade de adaptar-se aos poucos às novas situações e contextos, ou se a pessoa perde a visão na idade adulta, de forma abruta. As capacidades motoras, cognitivas, afetivas e sociais variam muito. As situações são complexas. Mas é importante enfatizar que o conjunto de técnicas existentes permite à pessoa com deficiência visual conviver e desenvolver-se do ponto de vista cognitivo e social.

Utilizando a técnica do toque, a bengala ergonomicamente modificada se transforma em instrumento de orientação e exploração do ambiente. Cães de inteligência elevada e treinamento rigoroso trabalham como cães-guia.

Será que a possibilidade de locomover-se com autonomia depende exclusivamente da pessoa com deficiência visual?

É claro que a autonomia de uma pessoa com deficiência visual poderá ser maior se o ambiente e os espaços de circulação forem adaptados.

Faixas no piso com textura (piso tátil) e cores diferenciadas (faixas amarelas em escadas e portas de vidro), por exemplo, facilitam a identificação dos percursos. Nas escolas e nas empresas, é possível remover muitos dos obstáculos existentes nas áreas de circulação ou evitar mudanças frequentes dos móveis. Elevadores adaptados com Braille e comunicação auditiva são essenciais em prédios e os sinais luminosos em ambientes de trabalho podem ser acompanhados por sinais sonoros. Placas em Braile podem indicar as salas em prédios públicos, escolas e empresas. Calçadas sem buracos e sem obstáculos, assim como escadas com corrimões, são essenciais para evitar acidentes. Nos computadores, softwares com sintetizadores de voz podem ser instalados gratuitamente, dando autonomia aos usuários.

Enfim, pode-se pensar em movimentos de dupla via: por um lado, a pessoa com deficiência visual e sua família podem buscar os recursos e desenvolver maior autonomia através de serviços especializados de apoio e reabilitação. Porém, cabe também à sociedade, em seus espaços públicos e privados, garantir o acesso, a circulação e as oportunidades para todos.

Bibliografia
Basto, L. S. C.; Gaio, R. C. Técnicas de orientação e mobilidade para pessoas cegas: reflexões na perspectiva da educação física. Movimento e Percepção, v. 11, n. 16, 2010.
Marron, J.A.; Bailey, I.L. Visual factors and orientation-mobility performance. Optometry and Vision Science, v. 59, n. 5, p. 413-426, 1982.
Santos, A. O cego, o espaço, o corpo e o movimento: uma questão de orientação e mobilidade. 2004. Artigo eletrônico. Disponível em: . Acesso em 2017.

Para citar este texto
Bisol, C. A. & Valentini, C. B. Orientação e mobilidade. Projeto Incluir. UCS/CNPq/FAPERGS, 2017. Disponível em: <https://proincluir.org/deficiencia-visual/orientacao-e-mobilidade/22-11-2019